



AS TRADIÇÕES NATALINAS DE NOSSA CIDADE E REGIÃO (ANTIGAS E ATUAIS)
Meu nome é Carmen Zimath Huth, Nasci na cidade de Joinville, Santa Catarina, Brasil. Nossa cidade foi fundada em 9 de março de 1851 por imigrantes alemães que aqui chegaram em uma barca chamada Colon. E, trazendo consigo, todas as tradições desse querido povo alemão, tanto na Cultura quanto na Culinária. As tradições, passadas de pais para filhos, aos poucos, foram se perdendo ou modificando, com a chegada de outras culturas trazidas por imigrantes de outros países como: Portugal, Polônia, Itália dentre outros.
Com a chegada dessas novas culturas, o povo em geral, modificou radicalmente seus hábitos e Tradições Culinárias. Mas os descendentes dos imigrantes alemães e poloneses, dos quais faço parte (além dos húngaros), continuaram a cultivar antigas tradições culinárias, tais como: o Stollen (pão doce de frutas natalinas), os pinheirinhos enfeitados com muitas bolinhas e luzes (que só poderiam ser vistos na noite de Natal), a ceia natalina da noite do dia 24, o consumo das frutas natalinas e a reunião dos parentes em nossa casa todas as noites de Natal. Geralmente a ceia era composta por Marreco Recheado, preparado por minha querida mãe, com todo o capricho (ninguém prepara um marreco mais gostoso). A bebida servida era a cerveja gelada, devido ao calor que reina em nossa cidade nessa época. A sobremesa, geralmente, era um gostoso pudim de leite condensado (banho-maria).
Dessa época tenho lembranças
de muitos cheiros, cores e músicas que durante o ano não tínhamos
acesso. O cheiro das maçãs argentinas (que só se conseguiam
comprar nessa época) perfumava a casa. A ansiedade maltratava a minha
alma de criança... Como queria ver o pinheirinho e abrir os presentes
pois, afinal, tinha sido uma menina obediente e minhas notas eram as melhores
da sala. Eram os critérios usados por meus pais para que ganhássemos
os presentes que desejávamos.
Minha lembrança também me remete ao cheirinho dos bombons de
frutas com licor, que meu pai comprava na antiga vendinha do Sr. Tilp, feitos
pela extinta Fábrica de Chocolates da Sönnksen (quem não
lembra dessas delícias?). E as nozes, avelãs e castanhas estavam
arrumadinhas na mesa da sala, esperando por nossa gula!
A ceia era “engolida” com pressa, não havia tempo para degustar, pois, afinal, os presentes nos esperavam debaixo do lindo pinheirinho alemão enfeitado com luzinhas importadas (velinhas de vidro com líquido borbulhante e colorido). Essa imagem me hipnotizava e deixava meu coração de criança cheio de alegria.
Mamãe não sabia, mas meu irmão Sérgio e eu, quase todos os anos, já sabíamos qual seria o nosso presente, pois como “detetives mirins”já os havíamos rastreado em todos os cantos e armários da casa... Mas disfarçávamos muito bem, demonstrando surpresa e alegria. Então cantávamos em alemão músicas natalinas tradicionais, olhando todos para o lindo pinheirinho! E a ansiedade infantil aumentava...
Mais tarde vinham os parentes mais próximos, todos descendentes dos alemães, trazendo sua alegria e mais presentes (oba...)! Passado um tempo, apareciam os descendentes de portugueses, moradores da região de Araquari. Eram pessoas muito simples que todos os anos vinham homenagear meu pai, companheiro de caça e pesca dos mesmos. Elas vinham cantar a “reiada”, uma espécie de música tradicional portuguesa em homenagem ao Natal, onde famílias inteiras cantavam para o homenageado. E eram esperados com muita cerveja gelada, pedaços de bolo de frutas natalinas e bombons de chocolate (aqueles deliciosos com licor e frutas). Em se tirando a chuva tradicional de toda noite de véspera do dia 25, que atrapalhava nossos passeios com nossas novas bicicletas, o Natal tradicional de nossa família era excelente...
São ótimas memórias de um tempo mais tranqüilo, cheio de amor e de amizade ! De um tempo onde se podia deixar portas e janelas abertas para receber quem quisesse vir para repartir nossa Ceia de Natal... Coisa essa que não podemos mais fazer! Mas as lembranças boas permaneceram na memória e, nos dias de hoje, faço um trabalho de resgate dessas antigas receitas natalinas. Essa pesquisa está sendo feita em livros alemães e cadernos antigos de receitas de antepassados nossos, e em pedaços de papel empoeirados, guardados no fundo de gavetas, mas dentro de nossa memória.
A cidade cresceu e se tornou um centro cosmopolita. Todos os tipos de tradições natalinas foram sendo trazidas por outros povos e agregados aos antigos costumes. O povo, em geral, só cultiva tradições “estrangeiras”, tais como: comer perú (EUA), panettones (Itália) e rabanadas (Portugal).
As árvores são montadas
já em novembro (todas artificiais), sem luzes coloridas, só
brancas. Os presentes são comprados pelos próprios presenteados,
independente de terem sido bons meninos e ótimos estudantes. As maçãs
perderam o seu cheiro e a Sönnksen faliu. O pessoal da “reiada”
não veio mais, pois meu pai já não está mais conosco.
Enfim, o Natal perdeu a sua graça e magia!!!
Mas eu continuo forte e firme, fazendo deliciosas cestas de Natal para nossas
empresas, que têm dentro: Stollen, Pfefferkuchen, Lebkuchen, Honigkuchen,
Bierewecke (pão de pêras), Marzipan e Trüffel. Estou lançando
um CD-ROOM com muitas receitas traduzidas do alemão para tentar trazer
de volta nossas tradições tão esquecidas pelos descendentes
de nossos colonizadores. É uma luta muito grande essa de tentar resgatar
um passado com suas tradições. Mas continuarei “brigando”
para que um dia, ao menos, voltem a chamar o pão de mel de Honigkuchen
e não de Beijo Baiano... Coisa feia essa falta de carinho com as tradições
que nos foram deixadas com tanto amor e dedicação! Carmen Zimath
Huth

E
o tempo passou muito depressa...As crianças cheias de ansiedade e alegria
no coração, que tanto esperaram por muitas noites de Nata, ficaram
adultos. Hoje são pais e mães, vovô até! E assim
a vida passou...Lembranças ficaram daquelas noites cheias de luzes,
cheiros, surpresas, abraços e alguns tombos na calçada (haviam
bicicletas novas e noites de chuva). Aprendemos a ser adultos responsáveis
e agradecidos por tudo aquele cuidado especial que recebemos de nossos pais.
Agradecemos por tudo que nos foi dado e ensinado. E, principalmente, pelas
lindas Noites de Natal!
Entrevista dada por Carmen Zimath Huth para a Revista Bremen Magazine (Alemanha)
Dezembro 2003
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